Uma das maiores sacanagens que já presenciei na minha vida aconteceu nas férias colegiais de mil novecentos e José Sarney, num acampamento que fizemos na reserva ecológica de Itapoã, na Lagoa dos Patos. Um bando de adolescentes punheteiros e espinhentos, acampando para fazer caminhadas, pescaria, beber muito vinho e sacanear os outros.
No primeiro dia tudo corria normal. As sacanagens consistiam em oferecer chicletes com anilina, atirar o "cordão cheiroso" do Tony Mágicas dentro das barracas, pintar as unhas do pessoal enquanto dormiam, sal na escova de dentes, etc.
Mas no último dia aconteceu o seguinte, depois da pescaria almoçamos e matamos alguns garrafões de vinho. A maioria do pessoal foi dormir. O Jorge Batata não. Eu já estava indo para a barraca quando ele me chamou. Presenti algo ruim no ar. Um frio na barriga. Medo saca!
O Jorge Batata era mais velho e o tipo do cara que gostava de sacanear pra valer, coisas como colocar tachinha na cadeira, chave de cueca, coisas que machucavam mesmo.
Dessa vez a idéia era fazer com que o Alemão Nereu, um gringo que tinha vindo do interior, acreditar que alguém tinha se masturbado enquanto ele dormia e deixado a coisa lá, do ladinho dele.
Para isso pegamos um ovo, e separamos a clara. Fui na barraca e coloquei a substância na boca do Alemão e no travesseiro. Em seguida que eu saio da barraca o fdp do Jorge Batata entra! E começa a sacudir e gritar pro cara que EU tinha feito a coisa na cara dele!
O alemão ainda que dormindo coloca a mão na boca e depois no travesseiro. Ninguém entendeu quando ele levantou e saiu correndo em direção a churrasqueira. Só depois que pegou na machadinha e veio em minha direção como um trem, ainda com a barraca enroscada nele, é que percebi a merda que estava feita.
Não conseguia me mexer, fiquei parado e lembro de ter pensado como seria ruim morrer assim ali virgem. Nisso o fdp do Jorge Batata pula no Alemão derrubando ele bem na minha frente, o Marcolino salta no braço da machadinha, e eu comecei a falar: - Era um ovo, era um ovo - e o Alemão ficava mais nervoso ainda. No fim o pessoal teve que amarrá-lo numa árvore. Ficamos falando e explicando que tinha sido com um ovo: -Um ovo ó! Eu mostrava. Olhava para a cara do Alemão, nunca tinha visto uma pessoa babar de raiva. Os olhos esbugalhados, vermelhos do vinho.
Até que o Alemão parou e começou a sacudir a cabeça. Respirou fundo e pediu para soltá-lo.
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Ninguém conversou muito no restante daquele dia, nem ninguém dormiu.
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Depois de uns meses eu consegui me vingar do Jorge Batata. E foi num melhor estilo.